segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crônicas do Cotidiano 1

O preço de um sorvete

Ontem, domingo, estávamos eu e Tony voltando da igreja e decidimos passar no shopping, para que ele usasse um bilhete de cortesia que ganhou numa das lanchonetes.

Ao entrarmos, ele foi pedir seu lanche e eu decidi tomar um sorvete. Estava sem minha bolsa e sem nenhum dinheiro, então aguardei que ele recebesse o lanche pedido e fomos juntos para frente da sorveteria.

Enquanto ele se sentava e começava a saborear seu lanche, fui ao banheiro antes de pedir meu sorvete. Ao retornar, percebi que tinha um casal sentado num dos bancos e discutiam alto, briga de namorados. Passei por eles e, então, o Tony me chamou discretamente. Antes que ele pronunciasse qualquer palavra, eu, com precipitação, acenei com a cabeça como se já concordasse com o que ele quisesse dizer e lhe afirmei: “Eu sei, eu vi”.

Naquele momento me passou pela cabeça que ele quisesse chamar a atenção para o que se passava com o casal ali próximo. Então voltei e passei a escolher, dentre tantos sabores, o meu preferido: tapioca. A moça me serviu e coloquei os adicionais antes de pesar, coco, calda de chocolate e flocos de arroz. Pronto, R$ 5,70. Avisei à moça do caixa que me sentaria para comer o sorvete e que meu esposo, que já estava ali, acertaria no final. Ela concordou.

Já na mesa, antes de dar a primeira colherada, comentei: “É, a coisa tava meio feia…”, me referindo ao tal casal. O Tony me lançou um olhar com total ar de que não havia entendido a razão do meu comentário. E eu reforcei:

_ Aquele casal, que estava brigando!

_ Hã, não vi não.

_ Ué, não era isso que você queria falar comigo naquela hora?

_ Não, eu queria é te mostrar o cartaz na parede da sorveteria avisando que eles não aceitam pagamento com cartão – e ele só estava com cartões na carteira.

_ Sério?! Nossa, e agora? Eu nem vi esse cartaz. Será que eu devolvo o sorvete? – olhei para o pote com aquele sorvete cheio de calda e flocos, certamente não aceitariam que eu o devolvesse.

_ Ah, amor, eu quis te avisar, mas você já veio dizendo que sabia, então nem me preocupei.

_ Você está com o cartão do banco aí ou só com o de crédito?

_ Estou com o do banco, mas não tem nada na minha conta.

_ Nem R$5,00?! Não é possível!

_ Depois vou lá embaixo no caixa ver o que tenho.

Ele continuou saboreando seu lanche e eu o meu sorvete, confiante de que logo que ele fosse ao caixa a situação seria contornada.

Ele terminou e saiu com a carteira para o térreo do shopping, rumo aos caixas de auto-atendimento do banco. Enquanto isso, eu tentava me posicionar melhor na cadeira para que a moça do caixa me visse e não pensasse que estávamos tentando lhe passar a perna.

O Tony voltou e acenou negativamente com a cabeça. Eu logo lhe indaguei: “Nada? Você tá brincando, né?”. Ele me respondeu que tinha R$ 9,16 mas todos os caixas só aceitavam a retirada de notas a partir de R$ 10,00.

E agora?! Não, não é possível, tem que haver outro jeito. Nessas horas a gente dá tudo pra passar um conhecido por ali… O Tony lembrou que conhecia uma gerente de uma das lojas da rede onde ele havia trabalhado. Se levantou e foi até lá. Conversou com os atendentes e eles lhe disseram que ela não trabalhava mais lá. Volta ele novamente, não deu certo.

_ Ah, tem mais uns caixas no piso de baixo! Quem sabe lá dê pra sacar notas de R$ 5,00 e R$ 2,00 – afirmei empolgada.

_ Tudo bem, mas dessa vez você tenta, ok? – Tony respondeu.

Ele me passou seu cartão e a senha e lá fui eu.

_ Não é possível! Eles devem achar que nesse shopping só frequentam ricos, por isso a menor nota de saque é R$ 10,00 – indaguei comigo mesma, injuriada. Mas para alguém teimosa por genética, não voltaria dali sem ao menos tentar. Obviamente que foi em vão.

Ao retornar, vi uma placa que informava um canto escondido onde tinham caixas de vários bancos disponíveis. Então pensei: “Certamente tem um caixa 24h, essa é minha chance!”. Cheguei lá e tentei por 3 vezes seguidas e o caixa nem sequer leu o cartão. O desespero era tanto que até tentar no caixa de outro banco eu tentei (nessas horas a gente fica até meio “burra”). Voltei à mesa decepcionada.

É, não nos restava mais nada a fazer. Teríamos mesmo que enfrentar a vergonha e o constrangimento e falar a verdade para a atendente. Teríamos que pedir desculpas a ela e tentar ver se aceitaria nossa promessa de passar no dia seguinte para pagar a dívida.

Sugeri uma última alternativa: passar o cartão numa outra loja vizinha e receber o valor em dinheiro para usá-lo na sorveteria. O Tony achou a idéia totalmente inviável, até porque ninguém aceitaria pagar as taxas do cartão por um valor tão pequeno. Ele abriu um pequeno bolsinho da carteira onde se guarda moedas e ainda conseguiu contar R$ 3,20. Já era alguma coisa.

Enfim, hora de resolver, de fato, o problema. Levantamos e fomos até o caixa. Que situação constrangedora! Coloquei minhas mãos no rosto e com um sorrisinho sem graça me antecipei: “Moça, estamos morrendo de vergonha. O que acontece é que enquanto me servia do sorvete não reparei o aviso sobre o não-pagamento com cartões na parede e, infelizmente, só estamos com cartões aqui. Poderíamos passar amanhã para acertar com vocês?”.

A moça, educadamente, sorriu e nos disse: “Claro que sim, fiquem à vontade! Não tem problema. É até bom porque teremos vocês aqui na loja novamente. Qual era mesmo o valor?”.

Ufa, que alívio! O Tony lhe entregou as poucas moedas que tinha e prometemos voltar no dia seguinte para quitar a dívida. Logo percebemos que ela era a dona do estabelecimento e acabara de conquistar novos fregueses.

Nunca o valor de um sorvete nos custou tanto! =) (KT)

3 comentários:

  1. Essa entrou p/ história !!! nunca mais me esquecerei o quanto vale um sorvete...

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  2. Nossaaaaa........

    isso foi veridico???
    kra, eu tava lendo e
    parecia q eu tava vendo
    tudo isso...
    daria tudo pra v mesmo, rsrsrs...
    sei q na hora foi constrangedor, mas depois,
    vcs deram muitos risos, néh???

    bjusssssssss.... pa vcs.

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  3. Jarde, pior que foi sim...kkk Rimos muito depois, inequecível!

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