quarta-feira, 14 de julho de 2010

O dia em que conheci a África

(parte do Diário de Viagem do 1º Projeto Missionários Voluntários da IPN em Guiné Bissau - escrito em julho de 2005)

"Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (I Co. 9:16)
01/07/05
Chegou o grande dia!
Acordamos todos em uma atmosfera diferente; num misto de expectativa, entusiasmo, temor e responsabilidade com a causa a qual nos comprometemos a fazer.
Foram tantos os preparativos até chegar aqui: papéis tramitando, fotos, vacinas, contatos, e-mails, questionários a preencher, ORAÇÕES, notícias e mais orações, muitas orações! Como é bom agora perceber que definitivamente temos o aval positivo de Deus e “eis nos aqui Senhor, envia-nos a nós”.
Então, é hora de nos despedirmos dos nossos queridos. Que gostoso ver tantos irmãos, parentes ou não, unidos conosco nessa empreitada divina. Cada abraço, sorriso, lágrima e olhar manifestaram, de maneira especial, o carinho de cada um. As palavras de incentivo inspiram ainda mais nosso desejo de cumprir o propósito que o Senhor tem designado para nós no outro lado do Atlântico.
Bom, mas está mesmo na hora de partir. Aliás, quase perdemos a hora... Corremos pela via de embarque até o avião, ufa! Foi até engraçado, parecíamos crianças com as mochilas nas costas após o último sinal para que os portões da escola sejam fechados: “Atenção, senhores passageiros, última chamada para o vôo com destino ao Rio de Janeiro!”
Tomamos assento nas poltronas, respirando fundo. São tantas as emoções!..
Aterrissamos na cidade maravilhosa, um pouco mais maravilhosa para mim que para os demais... (por ‘um’ específico motivo que estaria me aguardando no aeroporto e de quem recebi um papelzinho com o versículo citado acima). A espera era pra ser de aproximadamente 2 horas e meia, mas o vôo atrasou mais uma hora.
Novo embarque para Fortaleza, o vôo foi tranqüilo. Descemos do avião e fomos direto para o setor de controle das bagagens. Contamos e recontamos mala por mala, caixa a caixa, eram tantas as bagagens! Só de caixas tínhamos 6 e enormes! Todo nosso material de trabalho e pertences para 22 dias de missões estavam ali, tudo ok! Quase tudo... PM (pastor Marco) descobriu que nossos lugares não estavam confirmados no vôo de Sal para Praia, no país de Cabo Verde.
Que expectativa! Enquanto o PM contatava Brasília para definir nossa situação, nos reunimos em uma rodinha para orar. Qual foi, então, a nossa surpresa quando, olhando de relance para onde estava o pastor, Kalula afirmou: “Resolvido pessoal! O PM está dando sinais de que está tudo ok!” Esse é o nosso Deus, antes mesmo que peçamos, Ele já tem as respostas. Glórias ao Pai!
Subimos para a ala de embarque mas... peraí! Vamos contar o grupo: “1 – PM, 2 – Renato, 3 – Humberto, 4 – Letícia, 5 – Fran, 6 – Kalula, 7 – Izabela, 8 – Keli, 9 - ih... cadê o Conrado?! Procurem o chapéu de palha... Mas o dele ficou com a gente!” Ganhamos esses chapéus assim que descemos no aeroporto e era fácil identificar um MV daí pra frente. Mas o Conrado sumiu sem o tal chapéu.
Entramos na fila apreensivos, estava na hora de embarcar! Nossa sensação era de que estávamos incompletos, até que... lá vem ele, bem tranqüilo e numa boa, sorriso nos dentes: “Desculpa, pessoal, eu tava no banheiro escovando a fossa”. Tudo bem, Conradão, foi por uma justa causa.
A fila era lenta, devagar e parando mesmo. Sem contar que o cansaço de toda euforia era notável no rosto de cada um. Finalmente entramos na sala de embarque. Mais fila. A paciência foi uma virtude bem explorada e aprendida, pelo menos nesse momento em que não havia nada além a fazer a não ser esperar nossa vez. A Fran, não sabemos direito o porquê, foi solicitada a comparecer no guichê e entrou primeiro. Acho que ela já tinha aprendido a ser paciente o suficiente antes dos demais. Após a entrada dela, a fila andou mais rápido e todo o grupo pôde, então, se acomodar naquela grande aeronave.
A viagem transcorreu muito bem. No cardápio de refeições tínhamos arroz, frango recheado, salada, pão e mousse de sobremesa. Para beber: água, suco de laranja e, para a alegria do PM, Coca-cola. Essa seria nossa última refeição brasileira pelos próximos 20 e poucos dias, mas a alegria era tanta que não víamos a hora de chegar, mesmo que tivéssemos que experimentar coisas com temperos e caras diferentes do que de costume.
Se me perguntassem qual é a sensação de pisar no solo africano pela primeira vez, creio que “muito calor” será a resposta primária. Calor climático e também humano. Estávamos como quem sonha e acorda repentinamente vivenciando o que parecia tão longe de acontecer. Talvez porque, particularmente, por muitas vezes me pus a pensar que iria servir a Deus nessa terra, mesmo que temporariamente e então, de repente, Ele me leva para Brasília e, através da igreja onde me colocou para servi-Lo, me dá de presente essa oportunidade. Obrigada, Senhor! É tudo o que meu coração quer dizer nessa hora.
Já eram aproximadamente 4h30 da manhã do dia seguinte.
02/07/05
Um novo dia que para nós parecia o mesmo de antes, apenas uma continuidade. Afinal, não vimos o sol se pôr, nem nascer outra vez e o fuso horário nos deixou “con-fusos”.
Agora estávamos literalmente no Sal, ilha do Sal em Cabo Verde. Aguardamos cerca de 50 minutos até tomarmos o novo avião, agora bem menor, 42 lugares. Próxima parada: Praia, último ponto antes do nosso destino final.
Descemos e, novamente, passamos pelo aeroporto para mostrar documentação e entregar o bilhete de passagem. O curioso é que todas as vezes que o PM passava pelo rastreador de metais, em todos os aeroportos, diga-se de passagem, o sinal identificador apitava. Demorou, mas ele então descobriu o motivo de tanta “implicância” das máquinas: eram acessórios metálicos no seu sapato.
Finalmente subimos no avião, certos de que chegaríamos, enfim, a Bissau. Porém, o avião desceu em escala em Dakar e a aeromoça pediu que fôssemos para o prédio do aeroporto enquanto limpava a aeronave. Demos a volta e entramos no prédio para sair no saguão do avião novamente, parecia brincadeira de criança. Passamos pelo identificador e... lá vai o pastor tirar os sapatos.
Já dentro do avião nos acomodamos na certeza de que estávamos na reta final. Mas, mais uma vez aprendemos a esperar. Nada de ansiedade, pessoal! Um tumulto aconteceu devido ao excesso de bagagens em Praia. Retiraram algumas malas de outros passageiros para colocarem nossas caixas. Eles reclamaram, com razão, e as providências foram tomadas: tiraram 4 de nossas 6 caixas e nos prometeram enviar nossas caixas em 2 dias. Sabíamos que esse seria nosso mais novo pedido de oração para o próximo dia, pois já tínhamos sido avisados dos constantes extravios de bagagens que ocorrem por lá.
A viagem foi bem tranqüila. O lanche trazia um bolinho que foi sucesso total. Era muito saboroso, feito com côco africano e amêndoas. Nossa primeira impressão do paladar africano foi ótima!
Ao avistarmos a tão esperada Bissau, nosso coração tremeu de alegria e de curiosidade. Os olhos cansados se abriram atentos a cada detalhe que pudesse ser explorado até a aterrissagem. É incrível o quanto nossa mente tão criativa é absolutamente incapaz de idealizar de maneira completa um universo como este, de tantos contrastes físicos. A realização da vontade do Senhor começava a se desenhar ali, naquele solo de savanas e planícies.
Descemos da aeronave, já aliviados pelo término deste grande trajeto de 26 horas. No saguão de desembarque do pequeno e isolado aeroporto Osvaldo Vieira, nos esperavam o pastor João, pastor Júlio Melo e missionário Basílio, nossos irmãos e compatriotas residentes em Guiné. Já tínhamos contatos via email com pr. Júlio e os conhecíamos por fotos. Foi uma alegria estar pessoalmente com eles e, posteriormente, com suas famílias.
As bagagens foram colocadas nas camionetes e seguimos para a residência da missão AMIDE, onde nos hospedaríamos nos primeiros dias.
No trajeto observávamos todo o novo contexto que nos emocionou e nos fez refletir bastante. Saímos da nossa capital federal e foi difícil compreender aquela cidade, também capital, tal como é, uma realidade de pobreza e baixíssimas condições de vida. Passando por algumas partes, parecia que estávamos em uma aldeia africana. Os relatos do pr. João ao longo do caminho confirmavam as impressões. Sabíamos que ali estava um povo amado de Deus que sofria pelos constantes conflitos de guerra e desigualdades sociais, povo cegado pelo animismo e desenganos do Inimigo, e tudo o que mais desejávamos era ser instrumentos desse amor do Senhor na vida daqueles que viessem a nós naqueles poucos dias. Quão pequenos nós somos, mas usa-nos, Senhor, como Tu queres!
Ao chegar na casa, fomos muito bem recepcionados por Upá e por Samba. Upá é um rapaz simpático e muito educado, o primeiro irmão na fé guineense que conhecemos. Prestou-se a nos ajudar nas acomodações e ofereceu-nos já nossa primeira aula de crioulo. Aprendemos com ele uma cantiga que acabou compondo o repertório MV por toda a viagem: “Deus fa si camiño”. (...)
Samba é um garoto de 10 anos, muito esperto e querido. Conquistou logo o coração de todos. O relato do pr. Júlio sobre como ele teve suas mãozinhas queimadas pela crueldade do seu pai, emocionou-nos muito. Porém, apesar do trauma, Samba agora é muito amado e sabe que Jesus também o ama. Ele mora, temporariamente, com o pr. Júlio e sua família, de quem tem recebido estudos e aprendido sobre o amor de Deus.
Bem, depois de toda a jornada até Bissau, só restava-nos agradecer ao Senhor e descansar. Estávamos bastante exaustos com os preparativos, a viagem e as emoções daqueles últimos dias e precisávamos do renovo do Senhor para os desafios dos próximos dias. Cansados sim, mas como estávamos felizes! (KT)

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